Após 8 anos a morte de Coxsone Dodd, o DeSkaReggae Sound System preparou um tributo com texto sobre Dodd, além de uma seleção de músicas produzidas por um dos homens mais importantes da música e cultura da Jamaica.
Coxsonne Dodd (1932-2004)
Leo Vidigal
“Sem a visão e o trabalho de Clement Seymour Dodd, o reggae como conhecemos hoje não existiria”.
The Virgin Encyclopedia of Reggae
Conhecido no meio do reggae como “Sir Coxsonne” Dodd , o fundador do lendário Studio One – também chamado de “Universidade do Reggae” – faleceu no dia 04 de maio dentro do mesmo estúdio onde construiu as bases da música que tanto amamos.
Clement Seymour Dodd nasceu em 26 de janeiro de 1932. Ele cresceu na loja de bebidas de seus pais, onde Clement se encarregava de entreter os clientes e mantê-los no bar. Ele contava com a ajuda do pai, que também trabalhava no porto, de onde trazia discos de jazz e rhythm & blues dos navios americanos para o filho tocar na calçada em seu toca-discos Morphy Richards. Assim Dodd foi desenvolvendo um gosto musical refinado, o que foi crucial na sua primeira viagem aos Estados Unidos, em 1954, onde foi para trabalhar e aproveitou para comprar uma boa leva de discos, o que se tornaria um hábito pelos anos seguintes. Logo ele se tornou independente do bar, fundando um dos primeiros sound-systems, chamado Coxsonne Downbeat por causa de um jogador de críquete, e que acabou se tornando o apelido de seu dono. No microfone, comentando e anunciando as músicos, o pioneiro no desfiar do canto falado, Count Machuki, um dos primeiros artistas a ter sua primeira chance com Dodd.
Muitos outros o seguiram, como King Stitt, discípulo de Machuki que continuou a trabalhar com Coxsonne até o seu falecimento, que esteve no Brasil pouco antes também partir. Outros como Prince Buster, Lee Perry, Bob Marley e um longo etc, trabalhariam com ele mas o deixariam logo, não sem antes aprender as noções básicas do ofício na Universidade do Reggae. O meio musical começava a se tornar um bom negócio, atraindo multidões aos bailes ao ar livre ou em clubes semi-abertos. Segundo depoimento de Dodd a Steve Barrow, a concorrência que seu sound-system tinha com o de Arthur “Duke” Reid, chegava muitas vezes `as vias de fato, e ele mesmo chegou a dar uns socos em enviados de Reid que tentavam perturbá-lo na hora de trocar os discos.
Quando os artistas de rhythm & blues perderam espaço nos lançamentos americanos para o emergente rock n’ roll, que não era muito apreciado pelos jamaicanos, os discos novos rarearam e os sound-systems se viram ameaçados. Dodd foi um dos primeiros a tomar a iniciativa de gravar artistas locais, em estúdios precários com apenas um microfone para todos. Cantores e instrumentistas primeiramente fizeram versões e algumas canções originais próximas ao r&b original americano. Elas eram gravadas e prensadas apenas para tocar nos bailes (como nos atuais dubplates), mas o sucesso de algumas fez com que, a partir de 1959, Dodd começasse a fazer pequenas tiragens de compactos de vinil para vendê-los ali mesmo, para quem tinha acabado de dançá-los na pista. Como Reid iniciou sua produção na mesma época e as vendas começaram a dar lucro, o processo se acelerou, fazendo com que novos equipamentos fossem importados e mais músicos fossem contratados.
Esse cenário foi catalisado pela euforia causada pela independência da Jamaica da metrópole inglesa em 1962, gerando um um novo gênero musical, o ska. Dodd teve o mérito de fazer contato com músicos de boa formação (principalmente na Alpha Boys School de Kinsgton) que estavam dispersos pela capital da ilha e pelo circuito dos hotéis de luxo e dar-lhes condições de trabalho. Assim foi formada a lengendária banda The Skatalites.

Com os Skatalites: Lloyd Brevett (contrabaixo), Coxsonne (com a partitura), Roland Alphonso (sax) e Johnny “Dizzy” Moore (trompete)
Vendo que o ska estava caindo no gosto do público, o astuto Dodd tomou a decisão que o colocaria na dianteira dos produtores jamaicanos por muito tempo: comprou o seu próprio estúdio. Localizada no nº 13 da Rua Brentford, a casa que já havia servido como sede de um clube chamado The End foi comprada no início de 1963. Coxsonne chamou-o de Jamaican Recording and Publishing Company Limited, mas sempre foi conhecido como Studio One. A posse do estúdio permitiu que Dodd deixasse os instrumentistas ensaiarem com calma, sem se preocupar com o tempo da locação. Assim eles puderam experimentar e desenvolver o som que queriam, sempre abastecendo o sound-system de Dodd com novidades. Além disso Coxsonne tinha tino comercial e uma grande capacidade de garimpar novos talentos, tanto entre os instrumentistas como entre seus ajudantes, como Lee Perry, Leroy Sibbles, entre muitos outros que ajudaram a moldar o ska e o reggae. O ska logo amadureceu e se consolidou como um estilo, fazendo explodir as vendas e promovendo o surgimento das lojas de discos, que quase não existiam antes. Os Skatalites, que começaram como uma banda de estúdio, resolveram se apresentar nos palcos depois do sucesso de Simmer Down, do grupo The Wailers,em 1964. A cena musical ficava mais sólida.
Coxsonne se destacou também pelo profissionalismo. Ele contratava os músicos, aprovava ou não o que era composto e sugeria possíveis versões de canções de sucesso (como “Like a Roling Stone” de Bob Dylan, que teve uma versão dos jovens Wailers, entre outras) e ainda decidia o quê, como e quando lançar o que era gravado no pequeno e cada vez mais competitivo mercado jamaicano. Sua sagacidade e intuição certeira foram decisivas, fazendo com que o Studio One se destacasse pela quantidade, qualidade e consistência de sua produção musical.
Por tudo isso ele é reverenciado no momento de sua passagem para Zion como uma das figuras mais importantes na evolução da música jamaicana, importância que era sempre maior nas épocas de transição, como do ska para o rocksteady e desse para o reggae. Foi no período de gestação e posterior consolidação do reggae que o Studio One atingiu o ápice de sua influência, lançando artistas fundamentais do ska, rocksteady e reggae, gravando os riddims (bases instrumentais) que seriam retomados e usados como alicerce por diversos cantores em diversas fases da música popular praticada na Jamaica.
Salve o mestre Clement “Coxsonne” Dodd!
Mixtape Coxsone Tribute 2012 – DeSkaReggae Sound System
Download no SoundCloud!
Seleção:
1. Delroy Wilson, Paulette, King Stitt – Why Do Lovers (7″ Coxsone) 2. Jackie Opel & Doreen – The Vow (7″ Coxsone) 3. Delroy Wilson – I Shall Not Remove (7″ Coxsone) 4. Don Drummond – Surplus (7″ Coxsone) 5. The Clarendonians – You Won’t See Me (7″ Coxsone) 6. Peter Tosh – Don’t Look Back (7″ Coxsone) 7. Andy & Joey – You Wondering Now (7″ Coxsone) 8. Winston Stewart – Leave Me Alone (7″ Coxsone) 9. The Wailers – Dancing Shoes (7″ Coxsone) 10. The Wailers – Rock Sweet Rock (7″ Blank) 11. Ken Boothe – Don’t Want To See You Cry (7″ Studio One) 12. Bob Andy – I’ve Got To Go Back Home (7″ Coxsone) 13. Don Drummond – Last Call (7″ Blank)
Time: 29 min 43 s
14. King Stitt – Skank Corner (7″ Studio One) 15. Alton Ellis – Hurting Me (7″ Studio One) 16. Slim Smith – Hip Hug (10″ Music Lab) 17. Ken Boothe – Puppet On A String (7″ Studio One) 18. Freddie McKay – Sweet You Sour You (7″ Festival 71) 19. Marcia Griffiths – Melody Life (LP The Best Of Studio One, Heartbeat/Studio One) 20. Sound Dimension – Zion Lion (LP Version Dread Dub Specialist, Heartbeat/Studio One) 21. The Cables – What Kind Of World (7″ Studio One) 22. The Cables – Baby Why (7″ Studio One) 23. King Sporty – Inspiration (7″ Studio One) 24. Gaylads – Sound Of Silence (7″ Studio One) 25. Jackie Mittoo – Ram Jam (7″ Studio One) 26. Doreen Scheafer – Sugar Sugar (7″ Studio One)
Time: 59 min
27. Jennifer Lara – Tell Me Where (7″ Studio One) 28. The Selected Few – Selection Train (7″ Money Disc) 29. Carey Johnson – Correction Train (7″ Money Disc) 30. Roy Richards – Freedom Blues (7″ Studio One) 31. Dillinger – Killer Man Jaro (7″ Forward Records) 32. Sound Dimension – Mo Joe Rock Steady (7″ Iron Side) 33. Prince Jazzbo – Jah Dread (7″ Studio One) 34. Larry Marshall & Alvin – Mean Girl (7″ Studio One) 35. Ben Bow – Mamalulu (7″ Coxsone) 36. Pablove Black – Consumer Sounds (7″ Coxsone) 37. The Tennors – Pressure & Slide (7″ Studio One) 38. Sugar Minott – Oh Mr. DC (7″ Studio One)
Time: 01 hora 26 min 07 s
39. Otis Gayle – I’ll Be Around (7″ Studio One) 40. Horace Andy – Fever (7″ Studio One) 41. Dennis Alcapone – Fever Teaser (7″ Coxsone) 42. Delroy Wilson – How Can I Love Someone (7″ Coxsone) 43. Lone Ranger – Now The Gate Fly (7″ Studio One) 44. Johnny Osbourne – Rub A Dub Party (7″ Coxsone) 45. Horace Andy – Skylarking (7″ Bongo Man) 46. Lone Ranger – Screw Gone A North Coast (7″ Studio One) 47. Prince Jazzbo – Crab Walking (12″ Studio One) 48. Jennifer Lara – Consider Me (7″ Studio One) 49. Al Campbell – Take a Ride (LP When Rhythm Was King, Heartbeat/Studio One) 50. Johnny Osbourne – Truths And Rights (7″ Studio One) 51. Lone Ranger – Automatic (7″ Studio One) 52. Burning Spear – Swell Headed (7″ Coxsone) 53. Dennis Alcapone – Joe Frazier Round 2 (7″ Blank)
Time: 01 hora 57 min 16 s
54. Dennis Brown – Easy Take It Easy (7″ Studio One) 55. Tippa Lee – Rasta Kitchen (7″ Studio One) 56. Silvertones – Bad Boy Bad Boy (7″ Studio One) 57. Johnny Osbourne – Lend Me Your 16 (7″ Studio One) 58. Lone Ranger – Love Bump (7″ Studio One) 59. Half Pint – Deliver Us (7″ Studio One) 60. Carlton Livingston – Jam It Up (12″ Studio One) 61. Brigadier Jerry – Every Man a Mi Bredrin (12″ Studio One) 62. Sir Coxsone & Burning Spear – Rocking Time (7″ Studio One)











